As sociedades de territórios que se encontram fora de eixos tidos como produtivos enfrentam uma série de barreiras que dificultam não apenas a produção, como também a distribuição de filmes feitos em seus territórios e por suas populações. Apesar desses desafios, o cinema produzido nesses espaços, nessas possíveis zonas de contrato, fronteiras de atravessamentos, está longe de ser marginal ou periférico. Essas sociedades oferecem uma variedade de perspectivas e experiências que são muitas vezes ausentes no cinema do centro.
Em Sísmico, Vila Haiti e Missivas, as narrativas têm Mato Grosso como ponto de partida, elas saem desse território e cruzam outros territórios onde continuam. São filmes que possuem o deslocamento como ação de suas histórias. Deslocamento é algo comum em Mato Grosso. A ação de viajar encontrada nesses filmes guarda uma motivação, o juntar de peças para expor algo ao espectador. O que impulsiona esses deslocamentos? Em Sísmicos caçamos terremotos com Aroldo para ver seu método funcionar. Em Vila Haiti visitamos Porto Príncipe e Gonaives e descobrimos que sair daquela realidade é cultural, não reflexo da tragédia de 2010. Missivas nos leva a cruzar várias fronteiras atravessadas por Jane Vanini desde sua saída de Cáceres (MT) e compreender a força de suas escolhas. Já em Itinerário de cicatrizes a saída não é por nenhum deslocamento físico como os outros, mas na expansão performativa; a destruição ocorrida no Pantanal, durante as queimadas de 2020, mesmo tendo destroçado o território, não fica contida neste espaço. Ela influi em todo ecossistema mundial, expande e retrai até o último galho ser destruído. Em cada jornada temos a transformação de nossos personagens centrais e, como um elástico, eles saem e voltam, retornam transformados a este território.